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Verstappen precisa mudar primeiro sua atitude fora das pistas
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Red Bull

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Os milhares de torcedores holandeses que lotaram o circuito de Spa-Francorchamps no final de semana trouxeram uma motivação extra para Max Verstappen. Ele mesmo se referiu inúmeras vezes à prova como seu “GP de casa”. Inspirado por isso, fez uma tremenda classificação no sábado e se colocou na primeira fila do grid. Pressionado por isso, fez uma corrida errática no domingo e se tornou alvo de críticas da maioria dos colegas.

Vamos aos fatos da corrida. O holandês fez uma largada horrível, viu as duas Ferraris se adiantarem e tentou um mergulho de última hora otimista, mas pertinente, para voltar a superá-las. Com três carros disputando a curva e Sebastian Vettel sem a consciência disso, o choque foi inevitável. Para mim foi um incidente de corrida, mas com uma parcela de culpa maior do alemão.

Só que Verstappen pecou, novamente, na defesa por posições. Especialmente na briga com Kimi Raikkonen na reta Kemmel. Ele já havia feito o mesmo na Hungria, ficando no meio da pista e esperando o finlandês se decidir por qual lado atacar para fechar a porta. É algo que ninguém do grid faz – quem fazia, já aprendeu a respeitar um código não-escrito de ética entre os pilotos.

É, mais do que isso, um perigo. Fechar a porta daquele jeito num ponto de extrema velocidade e com o carro de trás muito mais rápido a é a senha para acidente com potencial catastrófico pela quantidade de energia envolvida.

Verstappen é novo, faz apenas sua terceira temporada no automobilismo. Tem um potencial obviamente enorme, por tudo que já demonstrou na pista. Mas o que tem me preocupado é sua atitude, especialmente aquela fora do cockpit. Às perguntas duras feitas com correção pela imprensa, vi ele assumir duas linhas de defesa. A primeira foi se colocar como vítima do incidente da largada e atacar duramente a dupla da Ferrari. A segunda foi a de dizer que “não se importa” com as críticas e que sequer foi chamado aos comissários.

Embora isso seja verdade, é algo que acontece mais por incompetência dos oficiais. Ou, algo mais temeroso, por uma sensação mais forte que Verstappen se tornou uma espécie de “intocável” pelas autoridades. Seu impacto na Fórmula 1 é extremamente positivo para o esporte, o clima deste final de semana em Spa é o mais sensacional que vi numa pista desde o já longínquo auge da “Alonsomania”, nos GPs da Espanha de 2006 e 2007. Em cima disso, ele parece ter se tornado acima da lei. Isso é preocupante.

Afinal, a categoria é cheia de exemplos de pilotos erráticos no início da carreira, mas que aprenderam os limites da pilotagem com respeito e não perderam a competitividade com isso. Pelo contrário, só evoluíram como pilotos. Se você pegar a lista de “pontos na carteira” após o GP da Bélgica – aquele pontuação que a FIA dá em cima de punições recebidas num período de um ano -, temos Sergio Perez e Romain Grosjean entre os poucos nomes com carteira limpa. Não faz muito tempo, eram dois animais selvagens soltos numa pista de corrida. Hoje, o mexicano faz sua melhor temporada na F-1 e o francês cumpre uma temporada acima do esperado na novata Haas.

Se os comissários não ajudam, Sebastian Vettel pode ser a chave para colocar os pés de Max Verstappen no chão. Após a corrida, o alemão da Ferrari foi claro ao dizer não achar necessário que os pilotos façam um grande caso contra o holandês no briefing da próxima sexta-feira em Monza. “Eu conheço ele, gosto dele, sei que ele é agressivo nas disputas e acho até que esta é uma arma importante do seu arsenal. Mas prefiro conversar diretamente com ele, com calma, para discutir algumas atitudes suas na pista”.

Acima de tudo, esta tarefa de acalmar a fera – seja feita por Vettel, pelo pai Jos ou pelos chefes de Max na Red Bull – vai deixar o holandês um piloto ainda mais completo. E todos sairiam ganhando com isso.


Novato na F-1, Ocon impressiona na estreia e mira pontos no domingo
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Manor

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As pernas finas sustentando o corpo de 1m86 dão uma impressão falsa de fragilidade. Mas Esteban Ocon mostra a serenidade de quem sabe ser um privilegiado por atingir seus objetivos de vida já na tenra idade de 19 anos. “Não dá para descrever a sensação. Ser um piloto de Fórmula 1 era meu sonho desde que eu era criança e trabalhei muito duro nos últimos dez anos para chegar aqui. Sempre que ganhava uma corrida de kart, dizia para mim mesmo que queria ser campeão na F-1 no futuro. Chegar aqui é um grande feito”.

O currículo recheado de sucesso do francês, com títulos em seu primeiro ano tanto na F-3 Europeia como na GP3, cria expectativas. O peso das pessoas que apoiam sua carreira, também. Frederic Vasseur, hoje chefe da equipe Renault, bancou do próprio bolso a passagem de Ocon pela GP3. Toto Wolff, da Mercedes, o colocou no seu programa de pilotos. A vaga no meio do ano na Manor veio depois do piloto impressionar os engenheiros da Mercedes no teste feito em Silverstone após o GP da Inglaterra.

“É uma boa surpresa. Há interesses em comum entre a Mercedes e Renault em me colocar aqui pensando no futuro. É uma ótima oportunidade para mim para aprender e começar justamente aqui em Spa é mágico”, diz Ocon. Cito que o circuito belga também foi palco de outra estreia, uma mais famosa: a de Michael Schumacher. O novato francês responde de maneira tranquila e ponderada. “Não posso pensar muito nisso. Se eu atingir metade do que ele atingiu na carreira já seria incrível. Ele é uma lenda, um dos meus ídolos. É uma coincidência boa de se ouvir, mas eu nem penso nisso pois colocaria uma pressão extra que é desnecessária para mim”.

No primeiro treino livre, Ocon já mostrou uma rápida adaptação ao carro da Manor. Ficou em 16º lugar e à frente do companheiro Pascal Wehrlein – que também tem apoio da Mercedes. O duelo ali vai ser decisivo para o futuro de ambos, mas Ocon adota uma postura diplomática. “Chego à equipe com a atitude de aprender antes de qualquer coisa. Ele é um grande piloto e tem muito mais experiência do que eu. Preciso ver o que ele faz, olhar para seus dados e chegar o mais próximo possível para estar pronto para a classificação. É o mais importante”.

Mais ambicioso está o objetivo que estabeleceu para seu primeiro final de semana na Fórmula 1. “Me sinto pronto para começar, acho que tive a melhor preparação possível. O objetivo é marcar pontos. É o que queremos e faremos tudo para conseguir isso”.


F-1 também teve seu escândalo da mentira. Com Hamilton de protagonista
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/McLaren

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O termo “Liargate”, utilizado pela imprensa internacional sobre o caso envolvendo Ryan Lochte e outros três nadadores norte-americanos nos Jogos Olímpicos, é bem familiar aos fãs da Fórmula 1. A categoria também viveu, em 2009, uma polêmica originada por uma mentira. E o protagonista do caso foi o hoje tricampeão mundial Lewis Hamilton.

A diferença é que o piloto inglês e sua equipe na época, a McLaren, tentaram ludibriar autoridades esportivas, e não policiais. O episódio teve origem nas voltas finais do GP da Austrália, que abriu o campeonato daquele ano. Num período de Safety Car nas últimas voltas, Hamilton vinha em quarto lugar e viu o terceiro colocado, Jarno Trulli da Toyota, cometer um erro e escapar da pista durante a neutralização da prova.

Hamilton assumiu a posição, explicou que o italiano havia errado sozinho e perguntou ao time o que fazer. Após alguns instantes, foi orientado a devolver o terceiro lugar, o que fez imediatamente. Logo em seguida os engenheiros da McLaren se inteiraram que tinham errado e que a troca não seria necessária, uma vez que o erro de Trulli justificaria a ultrapassagem de Hamilton em condição de Safety Car. Ainda assim, o piloto foi orientado a se manter em quarto, atrás do italiano. Confira aqui todo o desenrolar da situação. A prova terminou em seguida.

O piloto deu então entrevistas à televisão relatando os fatos como haviam acontecido. Mas foi depois aos comissários, acompanhado do diretor da McLaren Dave Ryan, explicar a confusão da última volta. Após perguntados, os dois negaram que Hamilton havia sido orientado pelo time a devolver a posição para Trulli. Julgando que o italiano tinha agido de má fé, os comissários o puniram após a prova e Hamilton foi elevado à terceira posição.

Mas a mentira teve perna curta. No dia seguinte foi apontada a contradição entre o que Hamilton declarou às tevês depois da prova e o que havia dito aos comissários. A FIA recuperou então toda as gravações do time e percebeu que havia sido enganada.

Quatro dias depois da prova, Hamilton foi desclassificado do GP da Austrália. A federação ameaçou também punições mais sérias à McLaren. O time agiu rápido: admitiu a farsa, demitiu Dave Ryan e anunciou que Ron Dennis estava deixando definitivamente o comando do time para se chefiar a fabricação dos carros de rua da McLaren, por motivos “que não têm relação com a Fórmula 1”. A FIA contemporizou e aplicou uma suspensão de três provas ao time, mas que só seria aplicada se o time voltasse a quebrar o código de conduta desportiva por um período de doze meses.

Fora a desclassificação em Melbourne, Hamilton foi poupado, ainda que sua imagem tenha ficado manchada. Na prova seguinte, na Malásia, o inglês deu uma coletiva de imprensa para explicar o inexplicável. Com voz trôpega, admitiu o erro, pediu desculpas e argumentou que havia sido mal orientado pela equipe. Eu estava lá e foi embaraçoso. Pelo menos, ao contrário de Lochte, o piloto teve a hombridade de encarar a imprensa e deu sua versão dos fatos.

Hamilton vive hoje o auge de sua carreira e o episódio ficou meio que esquecido no passado. Mas ainda fecha a cara toda vez que alguém menciona o “Liargate” da Fórmula 1. Afastado desde 2009, Dave Ryan voltou à categoria no início deste ano como gerente da equipe Manor. Disse ter a “consciência limpa” em relação ao episódio.


Ex-colegas apostam em sucesso do novato Esteban Ocon na F-1
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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Em uma semana a Fórmula 1 retoma suas atividades de pista com os primeiros treinos livres para o Grande Prêmio da Bélgica. Com uma novidade no grid: na equipe Manor, o francês Esteban Ocon assume o lugar do indonésio Rio Haryanto. E a expectativa sobre seu desempenho é enorme.

Isso acontece de maneira justificada. Ocon possui um currículo impressionante nas categorias de base. Foram títulos consecutivos na F-3 Europeia em 2014 – superando com autoridade o também estreante Max Verstappen – e na GP3 no ano passado. Na primeira metade deste ano, o francês manteve a forma pilotando na DTM pela Mercedes.

Os resultados foram mais modestos, um nono lugar foi sua melhor classificação. Mas numa categoria tão competitiva, seus colegas me disseram não ter a menor dúvida de que Ocon terá um impacto positivo na F-1.

“Ele fará um ótimo trabalho”, aposta o canadense Robert Wickens. “Não acho que seus resultados na DTM neste ano fazem justiça à sua qualidade como piloto. Ele sempre foi muito forte nas classificações e sei por experiência própria que a transição das categorias de base de monopostos para a DTM não é nada fácil. Na F-1 ele será veloz logo de cara. A Manor tem uma dupla de pilotos muito forte agora”, aposta.

O inglês Gary Paffett, com extensa experiência como piloto de testes na F-1, também aposta no sucesso de Ocon. “Ele é um piloto muito talentoso. Suas credenciais em monopostos são excepcionais, com títulos na F-3 e na GP3. Claro que ele não teve os resultados que gostaria na DTM, mas um estreante sempre leva um tempo para se adaptar. Ele é excepcionalmente rápido, esteve testando carros de F-1 ao longo do ano e tem a atitude correta. Acho que ele vai se dar bem”.

A Manor conta agora com dois pilotos apoiados pela Mercedes – o alemão Pascal Wehrlein foi campeão na DTM no ano passado correndo pela marca. O escocês Paul di Resta, que atua na F-1 como comentarista da emissora britânica Sky, vê nisso o potencial para um ambiente explosivo dentro da equipe. “Será tenso com dois pilotos juniores da Mercedes na mesma equipe. Tenho certeza que a rivalidade será no nível da de Hamilton e Rosberg. Acho que o melhor vai se sobressair e continuar a trajetória ascendente”.

Se essa briga pode definir qual o piloto que a Mercedes vai apostar para seu futuro a médio prazo na F-1, outros nomes também querem entrar na fila. O austríaco Lucas Auer, de 21 anos, conquistou em junho sua primeira vitória na DTM pela Mercedes. Sobrinho de Gerhard Berger, ele admitiu para mim que ainda sonha em correr na categoria que deu fama a seu tio. “Claro que no momento a concentração no trabalho da DTM é total. Mas sei que que se conseguir passar a somar vitórias aqui de forma constante, a porta da Fórmula 1 pode se abrir”.


Hamilton, infalível, caminha para terceiro título consecutivo
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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No final do ano passado e início deste ano, enquanto muitos apontavam falta de empenho por parte de Lewis Hamilton para explicar o banho que ele vinha tomando de Nico Rosberg, eu apontava que seu principal problema era a ocorrência de erros. Por mais que tenha sofrido azares aqui ou ali, o inglês perdeu a maior parte das corridas por largadas ruins que fez. Quando ele parasse de errar, escrevi, as vitórias inevitavelmente viriam.

“Significa tudo para mim. Adoro correr e cada corrida é diferente, cada uma possui suas particularidades. Era o segundo do grid e você nunca sabe como vai largar, a cada domingo é uma sensação diferente. Tive uma ótima largada e depois tudo foi se fortalecendo. E eu não cometi erros, o que era o mais importante para mim”.

A fala de Hamilton de hoje ilustra que ele também entendeu assim. Se não errar, pode ganhar mesmo sem ter a performance mais brilhante da história. Até porque serão muitas corridas como esta, em que um erro de Nico Rosberg facilita muito sua vida. O alemão não entendeu o que aconteceu na largada, que foi péssima. Tomou uma punição até discutível mas, acima de tudo, esteve apagado. Admitiu ter tido dificuldades no carro, especialmente com um desgaste grande com os pneus traseiros.

Daqui em diante, a vantagem de 19 pontos só tende a crescer – talvez não no GP da Bélgica, quando o inglês deve trocar o motor e largar do fundo do grid por isso. Mas ele sabe que o calendário até o final do ano conta a seu favor. “As pistas ruins para mim já passaram. Aqui mesmo não era meu circuito mais forte, mas eu dominei hoje. Temos uma boa vantagem agora para receber a penalidade e minimizar o prejuízo com ela”.

Com seis triunfos nas sete últimas corridas, Hamilton mais do que compensou o péssimo início de temporada que teve. Ninguém duvida que a base para seu quarto título mundial – terceiro consecutivo – já esteja bem cimentada. “Sinceramente, mal posso acreditar. Estava 43 pontos atrás e, naquele momento, não poderia sonhar em estar onde estou hoje. Isto mostra um trabalho incrível da equipe e que eu jamais desisti e continuei lutando. É uma lição para todo mundo, nunca desista do que está fazendo mesmo quando tudo está contra, pois uma hora você chega lá. Ainda não chegamos lá, mas estamos bem encaminhados”.


Em bom momento, Nasr busca novas chances para mostrar seu potencial
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Sauber

Foto: Divulgação/Sauber

Durante uma das interrupções por bandeira vermelha do treino de classificação do último GP da Hungria, o nome de Felipe Nasr apareceu no topo da folha de tempos. Com a pista úmida, condições complicadas e os 22 carros em ação, foi o brasileiro da Sauber quem completou uma volta em menos tempo.

“Foi bem positivo, bem marcante. Isso aumenta um pouco o reconhecimento. É em uma condição como essa que você pode aproveitar a oportunidade de mostrar o que você pode fazer. Chuva é chuva. Ali embolou, soube aproveitar o momento e levo isto como ponto positivo do final de semana”, me disse ele ainda na Hungria.

Foi, de fato, uma chance rara do brasileiro aparecer para olhos menos treinados sobre a Fórmula 1. Com o carro da Sauber em condições normais, é tarefa impossível. Não só o carro não foi atualizado nas primeiras dez corridas do ano. Ele não sofre melhorias desde a metade do ano passado, quando os problemas financeiros do time foram piorando.

O brasileiro vem de quatro apresentações boas, algumas até além do potencial do carro. Começou o ano de maneira estranha, levando um banho de Marcus Ericsson. Mas insistiu que havia algo de errado com o chassi, o time fez a troca e os resultados começaram a aparecer lhe dando razão, especialmente depois dele ter entendido a melhor maneira de mexer no acerto.

A partir do GP da Europa em Baku, Nasr passou a fazer provas consistentes e poderia até ter obtido uma improvável pontuação na Áustria não fosse um Safety Car que apareceu no pior momento possível para sua estratégia.

Agora que a Sauber que arrumou suas finanças, a expectativa é a de que o carro seja desenvolvido e a performance melhore, permitindo que seus pilotos ganhem chances mais reais de lutar por pontos. Para Nasr, seria uma nova chance de mostrar o que pode fazer. Por enquanto, pelo carro que tem, só com chuva mesmo.

De qualquer jeito, ele se mostra confiante em ficar na F-1 no ano que vem. Uma Sauber com mais dinheiro e melhor estrutura (o time busca um novo diretor-técnico e reforços na área) passa a ser uma alternativa. Mas o mercado indica que vagas podem ser abertas também em outros times como Renault, Williams, Haas e quem sabe até a Force Índia.


Hamilton decide na largada, vira líder mas teme punição inevitável
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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A virada na tabela aconteceu bem antes do que se poderia imaginar e veio ancorada em cinco vitórias conquistadas nas últimas seis corridas. Com exceção da embaraçosa batida na classificação para o GP da Europa em Baku, Lewis Hamilton minimizou eventuais erros, a confiabilidade do equipamento não o deixou na mão e a combinação disso bastou para ele finalmente colocar o Mundial de 2016 sob seu controle.

Ouvi o inglês depois da prova em Hungaroring e, ao contrário do que se poderia imaginar, não havia nenhum traço de euforia com o fato de finalmente ter virado o jogo. Hamilton estava feliz, mas bem contido em suas declarações. “É uma sensação incrível liderar o campeonato, mas ainda há um longo caminho pela frente, não é nada para se animar além da conta. Sofremos problemas, foi uma temporada de altos e baixos. Não posso relaxar, mas sim continuar o que venho fazendo e me mantendo concentrado”.

O temor do piloto tem explicação. Com o contigente de cinco peças da unidade de potência expirado em dois itens, ele sabe que uma punição para usar novas peças será inevitável. E a Mercedes deve fazer isso no GP da Bélgica em Spa-Francorchamps – uma pista em que um motor com pouca quilometragem é importante por conta do stress. E na qual o prejuízo por largar do fundo do grid (Hamilton leva pelo menos 20 posições de pênalti pelas duas peças que entrarem na sexta unidade) é menor.

Isso explica porque, no meio da prova, ele tirou o pé e permitiu a aproximação do companheiro de equipe e até mesmo de Daniel Ricciardo, o que acendeu o sinal de alerta  nos engenheiros da Mercedes. A ideia do inglês era vencer forçando o mínimo possível da sua unidade de potência. Ele sublinhou isso depois da prova. “Ganhei usando menos motor do que todo mundo, particularmente Nico. A partir daqui vai complicar, com certeza. Vou ver se consigo aumentar a vantagem de pontos na próxima corrida. Uma folga maior seria um passo importante para que eu não perca muito quando for largar do fundo do grid”.

Motivo para relaxar, só a constatação de que já consegue vencer sem fazer muito esforço. Hamilton esqueceu a polêmica da pole position conquistada por Nico Rosberg no sábado já na largada, quando assumiu a ponta. Seu discurso a favor da segurança é no mínimo hipócrita depois de ter bradado em Baku que os pilotos atuais reclamam demais de eventuais trechos que apresentam um risco mais elevado nos circuitos. O que o ainda afligia depois da prova era o erro que cometeu no segundo treino livre de sexta-feira, quando bateu e não pôde cumprir um cronograma normal de preparação. “Acho que estou pilotando muito bem. Admito que neste final de semana me compliquei um pouco, mas mesmo me complicando consegui vencer, o que é um sinal de solidez”.


Inconsistência dos comissários da FIA é inaceitável
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes-Benz

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Três horas e dezenove minutos da bandeira quadriculada encerrar o treino de classificação do GP da Hungria, os comissários de prova decidiram chamar Nico Rosberg e um representante da equipe Mercedes para ouvir suas explicações sobre a volta que lhe deu a pole position. O tempo do alemão foi marcado mesmo com ele passando num trecho com bandeira amarela dupla sendo mostrada.

Dados mostram que o alemão aliviou a aceleração durante 30 metros naquele trecho e perdeu 0s12 com isso. O regulamento sobre o tema não é específico. Diz que um piloto deve diminuir a velocidade “significadamente”. Vira uma discussão semântica. Claramente, Rosberg foi bem mais rápido que todos os outros pilotos que estavam na pista naquela momento. Alguns, como Lewis Hamilton, Daniel Ricciardo e Jenson Button, chegaram a abortar completamente a volta. Quem ainda assim manteve a velocidade nos outros trechos andou cerca de dois segundos mais lento que o tempo do alemão.

Mas a decisão final dos comissários, que aceitou os argumentos de Nico Rosberg, não é o ponto crucial. O que assusta é a demora de mais de três horas para que decidissem investigar um eventual incidente que foi mostrado imediatamente pela televisão logo após o treino. Imaginar que houve interferência externa não é ser leviano.

A Red Bull reclamou, Lewis Hamilton chiou, mas os comissários inicialmente aparentavam estar satisfeitos com o fato do alemão ter tirado o pé, ainda que só um pouco, naquele trecho. Durante horas, o que circulou nos canais não-oficiais aqui em Hungaroring é que nem haveria uma investigação. Horas depois, mudaram de ideia. Veio um telefonema de gente importante? Vai saber.

O que a Fórmula 1 não pode é ter comissários incapazes de fazer seu trabalho com a agilidade e a consistência que um esporte desta envergadura precisa. Depois de se complicar cada vez com um sem número de regras, o que temos hoje são decisões até contraditórias. Por um lado, há um excesso de zelo na questão da pista molhada – a paralisação inicial do treino de hoje era absolutamente justificada, mas os episódios recentes em Mônaco e Silverstone desagradaram muitos chefes de equipe que vêem na cautela excessiva do diretor de prova Charlie Whiting um fator que anda denegrindo a imagem do esporte.

Por outro lado, um episódio como o de hoje mostra que os mesmos comissários não aplicaram o mesmo tipo de zelo. Nico Rosberg não cometeu nenhum crime, pelo contrário, fez o que muitos pilotos fariam no mesmo caso, buscou apenas perder o mínimo de tempo possível. Mas também assumiu um risco por isso. Sair ileso do episódio é um pouco estranho depois do ridículo relatório da FIA culpando exclusivamente Jules Bianchi por seu acidente fatal – e desconsiderando completamente os erros que eles mesmo cometeram -, justamente por não ter diminuído a velocidade sob bandeiras amarelas de maneira significativa.

Já passou da hora dessa turma que regula o esporte ser trocada. O que, infelizmente, não vai acontecer, já que os peixes grandes da F-1 os tem como parceiros fieis para encher de política o que deveria ser o mais próximo possível de um esporte.


Atrás de Sette Câmara, o Brasil não tem pilotos chegando na F-1
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Sette Câmara em Silverstone (Foto: Divulgação/Quick Comunicação)

Sette Câmara em Silverstone (Foto: Divulgação/Quick Comunicação)

O teste de Sérgio Sette Câmara com a Toro Rosso nesta semana em Silverstone merece ser analisado com atenção. O brasileiro completou 89 voltas e o time se mostrou satisfeito com sua rápida adaptação a um carro de Fórmula 1. Por conta da chuva e de um problema no carro, não chegou a ter a chance de extrair tudo do modelo em uma volta lançada, com pneus novos e pouco combustível. Mas foi um passo importante na trajetória do único piloto do país que está próximo da Fórmula 1.

Atrás dele, existe um abismo.

O fato é que o Brasil anda muito mal na formação de pilotos para categorias de monoposto. Especialmente pela quase morte das categorias de base deste gênero no Brasil, abençoada pelo silêncio conivente dos dirigentes do país. Não falta apenas dinheiro – é, afinal, uma crise econômica mundial. Falta estrutura e apoio da parte de quem deveria ajudar.

Tive a sorte de começar a trabalhar com automobilismo numa época extremamente fértil para os brasileiros que tentavam chegar à Fórmula 1, no final dos anos 90, início do novo milênio. Na base na Europa, gente como Ricardo Zonta, Luciano Burti, Antonio Pizzonia, Enrique Bernoldi, Bruno Junqueira, Max Wilson, Mario Haberfeld, Ricardo Maurício, Jaime Melo Jr., Ricardo e Rodrigo Sperafico vinham não apenas muito bem preparados, mas conquistavam vitórias e títulos e eram um grupo respeitado não só pelos adversários, mas por quem operava as equipes também. Alguns chegaram ao objetivo final, outros estiveram perto. O que importa é que a amostragem era grande.

Hoje, o caminho para a F-1 ficou mais complicado simplesmente por não haver mais qualidade na base no país – especialmente a ausência de uma categoria para quem sai do kartismo. Sem ter como formar pilotos em casa, o caminho agora é enviar meninos ainda para a Europa, de preferência ainda no período do kart. É uma jornada dupla: busca-se não só a formação de um piloto, mas a de um homem que precisa amadurecer num país de língua estranha e longe de um ambiente normalmente privilegiado que tinha em sua origem. Não são poucos os que tropeçam nisso.

Olhando para as categorias de base na Europa, é preciso reconhecer que Sette Câmara é o único que mostra credenciais para ter ao menos a chance de testar um carro de Fórmula 1. Conversei com o mineiro em maio durante a corrida da F-3 Europeia na Áustria, um garoto de boa cabeça e, o mais importante, capaz de fazer autocrítica (coisa rara em muitos pilotos, mesmo na F-1). Sabe que precisa melhorar sua consistência no campeonato atual, em que ocupa a sétima colocação – é o melhor piloto de sua equipe no certame. Velocidade ele já demonstrou ter, o importante agora é minimizar a cota de erros.

No Brasil, muito se comenta sobre as chances de Pietro Fittipaldi e Pedro Piquet. Os sobrenomes que carregam impõem respeito, mas pelo que estão fazendo neste ano, a coisa pára por aí. Fittipaldi faz sua temporada de estreia na Fórmula V8 3.5 (antiga “World Series”), uma categoria com carros no nível da GP2. É o 13º colocado com 17 pontos num campeonato com 15 carros no grid. Seu companheiro de equipe, o também estreante suíço Louis Deletraz, é vice-líder com 110 pontos.

Os resultados de Pedro Piquet na F-3 Europeia também têm sido decepcionantes. Em cinco rodadas triplas (correm a sexta neste final de semana, em Zandvoort), o brasileiro pontuou apenas três vezes, sendo um sétimo lugar o seu melhor resultado. Sua equipe, a Van Amersfoort é boa – foi nela que Max Verstappen correu em seu único ano de aprendizado antes de chegar na F-1. No time de quatro carros, dois pilotos já venceram corridas: o inglês Callum Ilott e o francês Anthoine Hubert, um estreante na categoria.

Claro que Pietro e Pedro ainda são jovens, estão numa fase de aprendizado importante e podem se desenvolver como pilotos. Mas é inegável que os resultados que vêm obtendo não os credenciam a nada além dessa necessidade de se desenvolverem.

Existem outros nomes que vão se destacando aos poucos. Como Pietro Fittipaldi, Vitor Baptista também é estreante na Fórmula V8 3.5. No ano passado, foi campeão da Euroformula Open, um certame que reúne equipes menores de F-3 da Espanha e da Itália. Neste ano, teve um bom final de semana em Spa-Francorchamps em que quase subiu ao pódio. Ainda não está maduro, mas a curva é ascendente.

Ainda longe da F-1, mas se destacando estão outros pilotos. Matheus Leist está na briga pelo título de uma renascida das cinzas F-3 Inglesa, também um certamente muito além da qualidade da F-3 Europeia, mas certamente um passo importante para a moral e o aprendizado de um jovem brasileiro tentando a sorte fora do país.

Dando os primeiros passos, temos Felipe Drugovich, que faz uma boa primeira temporada no automobilismo na F-4 alemã, uma baita escola com mais de 30 competidores. Está em nono no campeonato e é o segundo melhor estreante até aqui. Rafael Martins na F-4 Inglesa e João Vieira na F-4 Italiana também obtiveram bons resultados neste primeiro passo para quem corre em monopostos.

A todos os brasileiros correndo na Europa e sonhando em chegar à F-1, uma salva de palmas pelo esforço de ir atrás de seus sonhos apesar das dificuldades enormes criadas pela ausência de uma base de qualidade no Brasil.


O medo que a F-1 tem da chuva já beira o ridículo
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação Mercedes

Foto: Divulgação Mercedes

A pancada de chuva que caiu durante a formação do grid foi forte e encharcou toda a pista. Mas o vento logo levou a nuvem carregada embora e sol saiu numa faixa de céu azul. A meteorologia apontava que não choveria mais sobre o circuito – como de fato ocorreu. Ainda assim, a direção de prova decidiu que a corrida começaria atrás do Safety Car – e foi assim por cinco voltas.

O cenário não foge do padrão dos últimos anos. No recente GP de Mônaco, por exemplo, a corrida também começou neutralizada antes que a disputa fosse liberada. Parece haver alguma regra não escrita que, com pista molhada, a largada não pode ser normal. O que é ridículo, ainda se tratando de uma categoria que tem alguns dos melhores pilotos do mundo. O dano de imagem ao esporte é tremendo.

A FIA realmente faz tudo errado com isso. É um fato que os carros da Fórmula 1 evoluíram tanto aerodinamicamente nos últimos anos que a altura em relação ao solo precisa ser mínima. Com isso, sofrem mais aquaplanagens em pista molhada. Mas chove no planeta Terra desde que o mundo é mundo.

Caberia à federação liberar a disputa em condições adversas como a de hoje e, se metade do grid acaba atolada na caixa de brita na primeira volta, que façam um projeto de carro diferente para o ano que vem.

São os engenheiros que precisam se adaptar às regras, mas no caso da pista molhada, foi a FIA (que faz as regras) quem se adaptou ao trabalho dos engenheiros. Um absurdo.

Outra escorregada da Federação neste domingo foi em relação à questão do rádio de Nico Rosberg. O carro tinha um problema no câmbio que causaria quebra e time recebeu liberação da FIA para avisar o piloto. Mas quando ele pediu orientações, time acabou passando dicas de pilotagem para superar o problema e isto não pode de acordo com as regras. Questão polêmica, mas a punição de dez segundos abre precedente para outros times fazerem o mesmo em situação similar, especialmente quando o piloto que vier atrás

estiver a grande distância. A Mercedes afirmou ter a intenção de formalizar o apelação e o caso pode parar no Conselho Mundial da FIA. Se isto acontecer, ao menos vai ser uma chance da regra ser melhor explicada.

Apesar da atuação horrível dos dirigentes, o domingo aqui em Silverstone teve um aspecto muito positivo: o público. Lewis Hamilton surfando num mar de torcedores vai ser uma das imagens do ano da Fórmula 1. Aqui, onde a categoria começou sua história há 66 anos, o público de mais de 100 mil torcedores deste domingo brindou o esporte com uma paixão rara de se ver hoje em dia. E foi brindado com uma corrida movimentada pelo imprevisível clima da região. Com apenas um ponto separando Rosberg de Hamilton na tabela, o clima dentro dos boxes da Mercedes em Hungaroring vai ferver. Duro vai ser aguardar duas semanas para as cenas do próximo capítulo…