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Decisão corajosa de Rosberg causa terremoto na F-1
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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No último domingo, quando Nico Rosberg chegou à minha frente na área das entrevistas para rádio e tevê em Abu Dhabi, a pergunta era óbvia. “Vimos algo hoje inédito: um campeão mentalmente esgotado após a conquista do título. É como você se sente”, questionei. O alemão foi direto: “foi tão intenso que foi até horrível. Meu sentimento é de alívio que acabou. Vai levar tempo para vir a alegria. Tenho meus amigos aqui, então depois de um tempo vai chegar. Mas foi incrivelmente duro. Incrivelmente”.

A descarga emocional justifica a decisão anunciada hoje em encerrar sua carreira na Fórmula 1 no auge. Para superar o talentoso e veloz Lewis Hamilton numa disputa direta na mesma equipe, Rosberg comeu o pão que o diabo amassou durante duas temporadas e teve de buscar o limite de suas reservas mentais para crescer a sua performance e atingir seu objetivo de vida. Tendo chegado lá, concluiu que valia a pena aproveitar seu tempo de outras formas, sem passar novamente por uma experiência que, nas suas palavras, pode ser tão intensa a ponto de ser horrível.

O alemão fez uma escolha corajosa e vai agora passar mais tempo com a família. Quer ser o pai e o marido que não pode ser nesse tempo em que estava correndo atrás de seu sonho. Como ele disse na coletiva de imprensa hoje aqui em Viena. Foi uma decisão tomada “ouvindo seu coração”. Não há porque se sacrificar tanto para conseguir algo que ele já tem.

A decisão, claro, gerou um verdadeiro terremoto na Fórmula 1. Afinal, abriu uma vaga na principal equipe do grid. Fernando Alonso sonha com ela há dois anos. Sebastian Vettel, que parece ter perdido o encanto com a Ferrari depois do caos administrativo que o time se enfiou, é um candidato natural para a marca alemã. Max Verstappen e Daniel Ricciardo já provaram serem capaz de ganhar corridas e possuem um futuro promissor.

Mas eles poderiam se livrar de seus contratos com suas equipes atuais para o ano que vem? Dificilmente.

A Mercedes parece fadada a recrutar alguns de seus jovens pilotos. Não faltam alternativas. Valtteri Bottas e Esteban Ocon já foram anunciados por Williams e Force Índia, respectivamente, para o ano que vem. Mas os dois times correm com motores Mercedes não teriam problemas em ceder um piloto para a fornecedora em troca de um desconto no pagamento.

Pascal Wehrlein, ainda sem contrato para o ano que vem, é outro nome realista. Talvez o mais realista. Afinal, se a Mercedes precisar esperar um ano para contar com um piloto de ponta só a partir de 2018, o alemão não teria problemas em aceitar um contrato por apenas uma temporada.

Para o brasileiro Felipe Nasr, a mudança no mercado de pilotos lhe é benéfica. Wehrlein era o principal cotado para ficar com sua vaga na Sauber. Com o anúncio de Rosberg, as peças serão redistribuídas e cresce sua chance de permanecer na F-1.


Título de Rosberg é para suas meninas, não para o pai
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

Foto: Divulgação/Mercedes

A poucas voltas do final do GP de Abu Dhabi, enquanto Nico Rosberg buscava no cockpit suas últimas reservas mentais para se manter na segunda colocação, a esposa Vivian recitava mantras budistas dentro do box da Mercedes. Se até então o alemão buscava demonstrar calma e tranquilidade com a proximidade do título nas entrevistas, era com ela que ele dividia a ansiedade e a empolgação de realizar seu grande sonho profissional.

Claro que, para o mundo, a narrativa de Nico repetir o feito do pai Keke era a mais tentadora e dava um contexto histórico para a conquista. Mas o título jamais teria acontecido se dentro dessa união dele com a esposa não tivesse vindo a força mental que ele precisou para agarrar a maior chance da sua vida.

A influência de Vivian está estampada no capacete do piloto, com o símbolo do nó eterno da filosofia budista. E também no discurso que ele emprega de viver uma corrida de cada vez e se recusar – de maneira para a imprensa até irritante – a elocubrar sobre eventos mais longínquos, como a eventual conquista de um título.

O nó eterno. Tudo é interligado. Cada ação que você tomar agora terá consequência no futuro.

Já lhe perguntei sobre isso há dois anos. Como Nico jamais gosta de abrir sua intimidade para a imprensa, a resposta foi curta. “O símbolo no capacete foi ideia da minha mulher. Mas sim, me interesso um pouco por esse pensamento”. Ponto final.

Conquistado o título, Nico e Vivian celebraram pelo rádio, numa ação extremamente feliz da Mercedes, que entende e reconhece a importância dessa relação no crescimento dele. Na coletiva após a corrida, a consagração disso. “Dedico este título para minha esposa Vivian, incrível, obrigado por todo o apoio. E para nossa filha Alaïa.

Alaïa. Na temporada passada, quando Lewis Hamilton sambou sobre a cabeça de Rosberg na maior parte do ano, pouca gente sabia que a gravidez de Vivian enfrentava complicações. Isto consumiu o foco que Nico precisava para tentar bater um adversário tão forte. Quando a questão médica se normalizou e a pequena veio ao mundo saudável, ele se libertou. Fez a pole nas seis últimas corridas do ano e venceu as últimas três.

O erro na decisão de 2015 em Austin foi outro golpe duro do destino. Mas o episódio do núcleo familiar já havia lhe dado a base para tirar as lições necessárias. Em 2016, um ano de altos e baixos dos dois pilotos da Mercedes, Rosberg soube melhor aproveitar as chances que surgiam e minimizou seus erros. Também agiu com decisão em alguns momentos da fase decisiva, como nas ultrapassagens sobre Kimi Raikkonen na Malásia e Max Verstappen em Abu Dhabi.

Quando conversei com ele após a prova, encontrei um homem mentalmente esgotado. Mas ciente de foi esse recurso que o permitiu chegar ao topo. “Foi tão intenso que foi até horrível. Meu sentimento é de alívio que acabou. Vai levar tempo para vir a alegria. Mentalmente, uma das coisas que me ajudou foi me manter concentrado o tempo todo. Trabalho nisso faz tempo e funcionou, me ajudou em corridas como hoje ou em Cingapura onde a pressão foi enorme o tempo todo”.

Keke, o pai, lhe deu o amor pela velocidade e os meios para que o menino Nico explorasse isso. Mas faz tempo que os dois entenderam ser melhor para ele a ausência do pai do paddock. Neste estágio decisivo da carreira, quem deu a tranquilidade para que o piloto crescesse foram Vivian e Aïana. O título é também delas. Muito delas.


Rosberg ganhou o título em Interlagos e só perde agora por um milagre
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

Foto: Divulgação/Mercedes

A calma das águas da marina de Yas dá o tom do clima de decisão em Abu Dhabi. Com doze pontos de vantagem na tabela e precisando de apenas um terceiro lugar para ser campeão, Nico Rosberg é apontado como favorito ao título por quase todo mundo no paddock. Dá para contar nos dedos quem acredita numa surpresa no domingo.

A explicação para isso é óbvia: salvo um abandono por acidente ou por falha mecânica, o alemão tem equipamento de sobra para conseguir o resultado que precisa. E o circuito no Oriente Médio não é o mais exigente para os carros e nem propicia muitos pontos de disputa – além de ter vastas áreas de escape no caso de algum problema. Passar incólume pela largada se apresenta como o maior desafio do piloto alemão.

Em termos de competitividade, o cenário também é extremamente favorável. Pelas características da pista, apenas a Red Bull pode representar alguma ameaça para a Mercedes. Mas mesmo que Rosberg faça uma largada horrível ou muito cautelosa e caia para quarto lugar ou ainda pior, é de se esperar que o time austríaco divida a estratégia de seus pilotos caso para tentar a vitória caso complete a primeira volta com ambos entre os três primeiros colocados. Assim, basta o alemão seguir a mesma estratégia de Lewis Hamilton que deve conseguir o resultado que precisa sem sustos.

Nessa reta final de campeonato, a maior chance que Rosberg tinha para jogar o título fora era em Interlagos. As condições climáticas complicadas abriram um cenário que poderia prejudicá-lo. Mas seu maior susto foi uma perda momentânea de controle do carro no meio da prova, quase uma rodada. Com a Red Bull se embananando nas decisões estratégicas de Max Verstappen, foi até fácil para o alemão conquistar um segundo lugar.

Chegar à decisão em Abu Dhabi dependendo apenas de um terceiro lugar facilita ainda mais a sua vida neste final de semana.


Um domingo, dois Felipes
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Beto Issa/GP do Brasil

Foto: Beto Issa/GP do Brasil

Sobraram homenagens a Felipe Massa no GP do Brasil em Interlagos.

O patrocinador estampou o nome do piloto na carenagem da Williams, com uma mensagem de “obrigado” na asa. Capacete e macacão tinham alusões à bandeira do Brasil. Descer do caminhão em frente ao Setor A e confraternizar com o público ali foi o ponto alto do desfile dos pilotos.

Mas a apoteose não foi planejada: ela foi escrita pelo destino. O acidente na 46ª volta encerrou uma prova marcada por decisões estratégicas arriscadas que não vinham dando resultado. Mas valia tentar algo diferente. Um pequeno erro, repetido por muitos outros durante a prova, passando pela linha branca e a batida aconteceu.

Massa passou uns instantes ainda no cockpit processando aquele momento. Desceu e acenou para a torcida. Ao tirar o capacete, a emoção transpareceu. Ganhou uma bandeira do Brasil de um fiscal de prova. No longo caminho da entrada dos boxes, as lágrimas vertiam com mais força que a chuva.

Os mecânicos das equipes fizeram fila para aplaudí-lo: Mercedes, Ferrari, Williams. Junto da esposa Raffaella e do filho Felipinho houve um abraço coletivo, no momento mais humano que a Fórmula 1 viu desde sempre. Ali, o núcleo de uma família unida criando a base para a despedida mais emocionante que a categoria já testemunhou. Nos boxes, no circuito todo, nas casas de todo o mundo, as pessoas choraram junto. Quem não chorou não tem paz no coração.

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Sobrou tensão para Felipe Nasr em Interlagos

As vagas que ele almejava no grid foram fechando ao longo da semana a favor de outros pilotos. Na Sauber, muitas conversas para buscar uma solução que acabou não sendo encontrada até aqui. O futuro incerto. Muita gente preocupadíssima com o fato do Brasil poder ficar sem pilotos na F-1 no ano que vem. Mas poucos incomodados com algo mais importante que a questão nacional: a chance de um piloto da qualidade de Nasr não encontrar lugar no grid.

Num ano para se esquecer em termos de resultados, o piloto recitou feito um mantra a falta de competitividade do carro que tem em mãos e reafirmou que a única chance de pontuar com ele era uma corrida fora do comum.

Hoje, ela veio.

Nasr pulou para 15º lugar logo nas primeiras voltas num excelente trabalho. Galgou mais algumas posições quando outros pilotos e equipes arriscavam uma estratégia diferente. Seguiu firme na pista, sem dar bola para as condições adversas, para a pressão de adversários com carros bem melhores que o dele, para quem imaginava que ele não aguentaria segurar um resultado fundamental para provar sua qualidade.

Foi calmo como na sua estréia na F-1 na Austrália em 2015. Ou como um garoto que vi, também na chuva, engolir o grid todo na Fórmula BMW no ano de 2009 em Silverstone. Nasr aproveitou com louvor a chance que teve de sobrepujar as limitações do carro.

Ele pode até não conseguir vaga no grid no ano que vem. Mas depois deste domingo, não dá para dizer que não a merece.


As opções de Nasr vão se acabando
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Sauber

Foto: Divulgação/Sauber

O mercado de pilotos se acelerou nesta semana com a definição de várias vagas para o ano que vem. A Renault, de maneira até surpreendente, confirmou Jolyon Palmer para correr ao lado de Nico Hülkenberg no ano que vem. O dinamarquês Kevin Magnussen vai para a equipe Haas correr no lugar hoje ocupado pelo mexicano Esteban Gutierrez. Todas essas mudanças foram acionadas pela decisão da Force Índia em contratar o francês Estaban Ocon para o ano que vem.

E Felipe Nasr?

Certamente, merecia mais. E é justamente isso que preocupa. Seu ano de estreia foi claramente mais forte que o de Palmer, por exemplo. Enquanto o brasileiro mostrou a capacidade de pontuar com consistência logo de cara, o inglês acumulou erros bobos, como o acidente em Mônaco e a rodada na Hungria, quando andava na zona de pontuação. Somou seus primeiros pontos na categoria apenas no GP da Malásia. Ainda assim, a Renault optou pelo piloto inglês depois que Magnussen foi para a Haas, ciente de que a vaga pretendida na Force Índia ficou com Ocon.

Preocupa o fato de Nasr não ter conseguido se encaixar em nenhuma dessas oportunidades, tendo na bagagem dois anos de experiência, um patrocinados de peso e o propagado apoio de Bernie Ecclestone – uma recomendação que, pelo meu conhecimento, carrega nas negociações desde o GP de Cingapura.

De alguma maneira, seu desempenho nessa temporada parece ter minado a opinião que se tinha sobre ele no paddock depois do bom ano de estreia. Não pela falta de pontos dessa temporada, já que os problemas internos da Sauber e como isso se refletiu na competitividade do carro é conhecido por todos. Mas, para quem vê de fora, transpareceu uma relação complicada dentro do time, tendo o incidente do GP de Mônaco como ponto alto disso.

O fato de Marcus Ericsson ter superado Nasr em treinos de classificação também não ajudou. O brasileiro correu com um chassi ruim nas primeiras provas e apontou outros problemas de procedimento do time em algumas classificações, mas a frieza dos números parece ter pesado. Ele afirmou hoje em Interlagos o contrário. Lamentou apenas que as negociações não deram certo “pois as coisas não se encaixaram”.

A chance principal é que Nasr permaneça na Sauber. Ele deu indícios de que trabalha para isso e elogiou o trabalho de reestruturação que a equipe fez. Mas, para quem passou o ano acompanhando de perto sua temporada, ele deve acabar ficando justamente no lugar que trabalhou tanto para sair. Se não der certo, sobra a Manor, um time sem a infra-estrutura necessária para desenvolver o carro do ano que vem com a agilidade necessária. Uma outra opção seria buscar uma vaga de piloto de testes em outra equipe (Williams?), com vistas a uma vaga de titular para 2018. Qualquer solução fica com cara de contingência.


F-1 joga credibilidade fora com atuação ridícula dos comissários
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Red Bull

Foto: Divulgação/Red Bull

Era para ser uma festa digna do impressionante público de 135 mil pessoas que foram ao circuito Hermanos Rodriguez: Lewis Hamilton se mantendo vivo no campeonato com uma vitória em um final de semana em que esteve fortíssimo; Nico Rosberg mantendo a pressão sobre o inglês com o segundo lugar; duelos ferrenhos entre Red Bull e Ferrari e também entre Force Índia e Williams.

Mas a boa corrida no México ficou em segundo plano depois de mais uma sequência de decisões absolutamente inconsistentes, irritando todo mundo, dentro e fora do paddock. A reação que vi de torcedores nas mídias sociais aponta para um desastre na imagem da categoria.

A situação é séria e fiz abaixo faço uma lista algumas das decisões, com minhas considerações:

Incidentes na curva 1

– Como ele conseguiu se safar dessa manobra?

A risada irônica de Nico Rosberg ao ver nos monitores Lewis Hamilton passando reto na primeira curva, acelerando pela grama e inventando uma reta imaginária entre as curvas 1 e 3 sublinha o sentimento de muita gente dentro e fora do paddock. O fato da manobra não ter sido nem investigada pelos comissários mostra o estado atual das coisas.

Lewis Hamilton chegou na primeira freada após a largada com pouco mais de um carro de vantagem entre ele e seu companheiro de equipe. Travou as rodas e foi reta em alta velocidade, cortando o traçado. Quando chegou para a freada da curva 4, antes que o Safety Car Virtual (doravante VSC) fosse acionado, tinha colocado mais de sete carros de espaço entre ele e Rosberg. Se isso não é levar vantagem…

Há quem argumente que a FIA não puniu Rosberg porque o VSC neutralizou qualquer vantagem que possa ter tido. Na verdade, ela sumiu quando o SC real entrou na pista por conta dos detritos, já que o VSC apenas “congela” as diferenças entre os carros. 

Mesmo assim, Hamilton errou naquela curva – argumentou que um dos freios dianteiros tinha “vidrado” porque não o havia aquecido da maneira correta na volta de apresentação – e não pagou pelo erro. Pelo contrário, até abriu vantagem maior com ele.

Mais tarde na prova, quando Sergio Perez tenta ultrapassar Felipe Massa na mesma curva 1, o mexicano também passa reto, mas diminui significantemente a velocidade e retorna à pista antes da curva 2. Este seria o procedimento correto que, se Hamilton tivesse feito na primeira volta, teria lhe custado algumas posições. Portanto fica evidente que o inglês levou vantagem.

Na parte final da prova, Verstappen fez uma manobra praticamente idêntica a de Hamilton e recebeu cinco segundos de punição – a meu ver, uma pena até branda tendo em vista que ele se recusou a dar passagem para Vettel, como seria correto. Merecia uma pena mais severa. Depois da prova, o holandês disse ter em mente a manobra que ficou Hamilton fazer na largada e sequer havia sido investigada.

Assim, ficou mesmo a pergunta: como Hamilton conseguiu se safar dessa? Nico Hülkenberg, da Force Índia, também ficou perplexo. “Estou muito surpreso pois foi uma vantagem enorme. Ele saiu muito da pista, esteve bem longe de conseguir fazer a curva um e a curva dois. Que não tenha sido nem investigado me surpreende, pois em qualquer outra pista isto poderia ter terminando em um acidente ou em perda de posições. Não consigo entender”. Nem eu.

Outro incidente na curva 1 aconteceu logo atrás da escapada de Hamilton: o toque entre Rosberg e Max Verstappen. Este foi investigado e considerado incidente de corrida. Para mim, corretamente: Rosberg alivia uma fração de segundo a aceleração ao ver Hamilton fritando os pneus (olha mais uma vantagem que o inglês levou) e o holandês ataca por dentro. Ele vem rápido demais e os dois se tocam com alguma força. Rosberg sai da pista e volta à frente do holandês cortando a curva dois (mas, pela força do toque, pensar em vantagem adquirida aqui não faz sentido). A manobra me lembrou a ultrapassagem do mesmo Rosberg sobre Kimi Raikkonen na Malásia. Uma disputa dura, mas dentro dos limites. Concordo que Verstappen não tenha sido sancionado por ela.

Incidente na curva 4

A punição a Sebastian Vettel na disputa com Daniel Ricciardo causou polêmica, mas foi correta na minha opinião. Isto porque a regra mudou no último GP dos Estados Unidos justamente por conta das diversas vezes ao longo do ano em que Max Verstappen mudou a direção de seu carro numa freada, depois do ataque de quem vinha atrás. A imagem aérea não deixa dúvidas de que o alemão vira bem o carro para a esquerda quando o australiano decide atacar. Vettel deixa um espaço mínimo e os dois pilotos mostram destreza ao evitar um contato além do toque muito leve que aconteceu.

Mas regra é regra. Mesmo que Vettel tenha sido injustiçado pelo fato de Verstappen estar à sua frente quando não deveria após o que aconteceu na curva um na volta anterior. Um exemplo de conduta correta em manobra similar durante a prova foi quando Verstappen tentou ultrapassar Nico Rosberg no mesmo ponto. O alemão manteve sua linha quando o holandês atacou, mas este travou rodas e foi reta, permitindo que Rosberg retomasse a posição. Se Vettel tivesse feito o mesmo na briga com Ricciardo, provavelmente seria ultrapassado já que o australiano pareceu ter julgado melhor a manobra. Mas seria tudo dentro das regras.

Conclusão

Já faz tempo que a inconsistência dos comissários é um ponto preocupante da Fórmula 1.  Quando acontece algo como hoje, em que o pódio visto na pista não corresponde com o resultado final, a imagem da categoria sai muito manchada. Soluções para o problema? Para mim, descentralizar as decisões. Essa ideia de três comissários (sendo um ex-piloto)  e mais o diretor de prova para julgar os incidentes já mostrou ser equivocada mais tempo.

Soluções? Coloquem quatro, cinco trios de comissários à disposição, com acesso à todos os ângulos de câmeras possíveis. Se houve múltiplos incidentes num período curto, a existência de mais grupos agilizaria as decisões. E isso eliminaria estas irritantes confusões pós-corrida. Quanto à inconsistência das decisões, é algo que precisa ser revisto com urgência. É preciso haver mais clareza na aplicação das regras. Uma ou outra variação na interpretação vai acontecer, é inevitável. Mas no volume que anda acontecendo atualmente, é inaceitável.

E você, o que achou da atuação dos comissários no México?


Hamilton vence com autoridade, mas Rosberg mantém pressão
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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Lewis Hamilton se apresentou no GP dos Estados Unidos com uma postura bem diferente do piloto atormentado que apareceu há duas semanas, quando arrumou encrenca com a imprensa fora da pista e errou dentro dela. Dessa vez, o inglês foi irretocável tanto na classificação quanto na corrida, ao mesmo tempo em que se mostrou mais calmo fora dela. Conseguiu uma vitória fundamental para lhe dar uma sobrevida na disputa pelo título.

Desta vez, a quota de erros ficou reservada para os adversários. Nico Rosberg não conseguiu nenhuma volta limpa no Q3 da classificação e fez uma escolha incompreensível na linha da primeira curva após a largada, deixando a porta escancarada para Daniel Ricciardo lhe roubar a segunda posição.

Sorte do alemão que a Red Bull acabaria prejudicando a si mesma. Primeiro com Max Verstappen entrando nos boxes sem avisar a equipe. E perdendo tempo precioso com isso. Depois quando o holandês teve um problema de câmbio e parou na beira da pista, o que acabou gerando um Safety Car Virtual salvador para Rosberg fazer sua última parada sem perder muito tempo – Ricciardo já tinha feito a sua.

Houve erros também por parte da Ferrari, que jogou fora pontos importantes na briga com a Red Bull com um pitstop desastroso que tirou Kimi Raikkonen da prova. E de Felipe Massa, que poderia ter conseguido um resultado importante para a Williams na briga com Carlos Sainz mas acabou bobeando e sendo ultrapassado por Fernando Alonso.

Numa corrida que acabou sendo pouco movimentada, Hamilton diminuiu para 26 pontos a vantagem de Rosberg na tabela mas continua sob pressão já que, no México, ele precisa contar com a confiabilidade do equipamento e ser cuidadoso em eventuais brigas por posição – afinal, a matemática aponta que um eventual abandono seu e uma vitória do alemão encerraria a disputa pelo título já no próximo domingo.

Se mantiver a forma e a calma exibida em Austin, Hamilton seguirá num bom caminho para, no mínimo, levar a decisão até o encerramento da temporada em Abu Dhabi. Mas será um teste severo, especialmente na parte mental. Após a vitória desse domingo, ele afirmou: “passei a corrida petrificado que o motor não aguentaria. Estou um pouco assombrado pelo barulho que ouvi na Malásia antes do motor quebrar. Foi um peso no meu coração durante toda a prova”.


Colegas da Mercedes vêem Rosberg próximo do título
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Mercedes

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Nico Rosberg já avisou que não pretende pensar no campeonato neste final em Austin, concentrando-se na busca pela vitória. Mas corre com as contas a seu favor. Se conseguir terminar na segunda colocação, mesmo com vitória de Lewis Hamilton, vai para o México com 26 pontos de vantagem e teria a chance – mais matemática do que lógica – de ganhar o campeonato já na semana que vem.

Não por acaso, os companheiros dos dois pilotos que defendem a Mercedes no DTM apontam o alemão como grande favorito para o campeonato deste ano. Conversei com eles com exclusividade em Hockenheim e o consenso é que o trabalho de Rosberg até aqui justifica uma eventual conquista.

“A vitória no Japão foi um passo importante e Nico têm mostrado a atitude e a agressividade necessárias para se tornar campeão”, diz o escocês Paul Di Resta, que passou pela F-1 na Force Índia e hoje comenta provas da categoria para a tevê inglesa. “Ele merece estar liderando o campeonato neste ponto. Cabe a Lewis agora tentar reverter isso. Vai ser um grande teste para ele”, aponta.

O inglês Gary Paffett conhece bem Hamilton, tendo trabalhado ao lado dele por vários anos como piloto de testes da McLaren. Ele aconselha a seu compatriota a não desistir da briga. “Acho que é uma ótima disputa, os dois pilotos tiveram seus altos e baixos ao longo da temporada. Lewis teve um pouco de falta de sorte em questão de confiabilidade o que, na minha opinião, é puramente falta de sorte, nada mais. Sei que é difícil para ele aceitar, já passei por situações assim na minha carreira. Ele só precisa levantar a cabeça e se concentrar na pilotagem. Os dois são muito parelhos em termos de pilotagem e Lewis precisa trabalhar para tentar diminuir essa vantagem”.

Paffett acrescenta porém que as circunstâncias devem facilitar o trabalho de Nico Rosberg nas corridas que restam. “A diferença de 33 pontos é significativa e Nico tem uma ótima chance de ser campeão se continuar fazendo seu trabalho. Não acho que Red Bull e Ferrari estejam próximas o suficiente para ameaçar o carro da Mercedes. Em circunstâncias normais, será sempre uma dobradinha e para Nico isso deve bastar mesmo se ele fique sempre em segundo”.

Já o alemão Maximiliam Götz enfrentou a dupla da Mercedes nos tempos do kart e aponta a força de Rosberg em classificações neste ano como um fator decisivo para a vantagem dele na tabela. “Conheço os dois há quinze anos e estou acompanhando com interesse esse duelo. Acho que Nico merece o título deste ano. Ele foi constante ao longo de todo o ano e melhor em classificações que Lewis – o que era a especialidade do inglês”. Na verdade, o quadro é de equilíbrio: em 17 provas, Rosberg ficou à frente de Hamilton em nove delas. Ainda assim, ele equilibrou um quadro que, no passado, tendia claramente a favor do piloto inglês.


Um campeonato espetacular. E ninguém se importa
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: BMW/Divulgação

Foto: BMW/Divulgação

O DTM encerrou no último domingo em Hockenheim sua temporada coroando o alemão Marco Wittmann, da BMW, como campeão. A disputa pelo título se estendeu até a última corrida do ano e foi eletrizante: o adversário de Wittmann, Edoardo Mortara (Audi), conseguiu uma incrível vitória largando da quinta posição no grid, mas o alemão terminou a prova em quarto lugar e coroou com o título sua regularidade ao longo do ano.

Na teoria, seria um ano só para festejar: dez vencedores diferentes ao longo de dezoito corridas, uma alternância com cara de MotoGP e bem distinta do que acontece atualmente na Fórmula 1.

Na prática, só ouvi reclamações de pilotos frustrados ao longo da temporada. E muito desinteresse do público em geral.

Da primeira parte, o ponto polêmico foi justamente um acordo feito entre as marcas para tornar o carro da BMW mais competitivo: o time ganhou a permissão de correr com 7,5 quilos a menos que os modelos das duas outras marcas. E com uma asa traseira 50mm mais larga. A ideia era equilibrar as performances dos carros.

Claro que os adversários (Audi e Mercedes) passaram a reclamar à medida que Wittmann foi se consolidando na liderança da tabela. O ganho de performance é indiscutível, mas também é fato que o alemão parece ter sido o único piloto da BMW a tirar proveito disso: os outros sete nomes da marca passaram o ano em posições intermediárias. O quanto do título veio pelo carro e o quanto pelas qualidades do piloto é discutível.

Mas fica claro que o desejo de todos os pilotos do grid desejam um campeonato com regras iguais para todos. Quem admite isso é o português Antonio Felix da Costa, que corre inclusive pela BMW. “A frustração dos pilotos é real. Dá pena. O DTM tem potencial para ser um dos melhores campeonatos do mundo. A performance e a tecnologia dos carros, a qualidade dos pilotos, os ingredientes são muito bons. Mas não é aproveitado. Basta comparar com o que a Fórmula E atingiu em apenas dois anos. O DTM precisa dar um salto, sair mais da Alemanha. É um problema que precisa ser resolvido pelas três marcas”.

Além da questão política entre as três marcas, em termos de repercussão, o campeonato deixou muito a desejar. Com exceção da abertura e do encerramento do ano em Hockenheim e da tradicional corrida de rua de Norisring, em Nurembergue, a presença de público foi pequena. Essencialmente porque o campeonato é mal promovido. Não dá para deixar de concordar com Da Costa. É uma pena.

Impossível também não traçar paralelos com a Fórmula 1. Que os novos donos dela aprendam com isso.


Hülkenberg ganha a última chance de elevar seu potencial na F-1
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Luis Fernando Ramos (Ico)

Foto: Divulgação/Force India

Foto: Divulgação/Force India

Há sete temporadas na Fórmula 1, Nico Hülkenberg possui vários admiradores no paddock. O primeiro que eu vi apontar um futuro brilhante para o piloto alemão foi Rubens Barrichello, seu companheiro na Williams na temporada de estreia dele, em 2010. Me lembro do brasileiro perplexo ao final daquela temporada quando o time inglês optou por dispensar Hülkenberg para a chegada de Pastor Maldonado. “Hülk é um piloto muito bom, é ruim para o time deixá-lo ir embora”, disse na época.

Há sete temporadas que o alemão vivia flertando com voos maiores sem conseguir. Relatos jamais confirmandos oficialmente dão conta que ele chegou a ter um pré-acordo com a Ferrari para a temporada de 2014, mas os italianos optaram no final por assinar Kimi Raikkonen.

O perfil de Hülkenberg voltou a ganhar impulso no ano passado quando encaixou bem na equipe da Porsche das 24 Horas de Le Mans, fazendo parte do trio vencedor e ainda tendo o privilégio de estar ao volante no momento da bandeira quadriculada.

Curiosamente, dúvidas começaram a pipocar dentro da Fórmula 1 nos dois últimos anos, especialmente na comparação com um renovado Sergio Perez dentro da Force Índia. O mexicano somou mais pontos no ano passado e vem somando mais neste, conseguindo também alguns pódios para o time, um resultado que Hülkenberg jamais obteve na categoria. Outros nomes passaram a aparecer antes do alemão quando vinculados a possíveis vagas em equipes de ponta: Valtteri Bottas, Max Verstappen, o próprio Perez.

O fato da Renault ter oferecido ao piloto um contrato “multi-anual” – especula-se que seja de três temporadas – o coloca finalmente num lugar que ele tanto almejou: uma equipe de fábrica, que deve aumentar o investimento nos próximos anos na busca de lutar por pódios e vitórias.

Ainda não está claro quem será o companheiro de Hülkenberg. Há comentários de uma negociação com Valtteri Bottas, o novato Esteban Ocon é outro que aparece bem cotado. A sensação é que a dupla atual, formada por Kevin Magnussen e Jolyon Palmer, não agradou e deve perder espaço.

Se conseguir fazer crescer um time com grande potencial financeiro no papel de líder, Hülkenberg terá realizado os sinais de qualidade que já demonstrou ao longo de sua carreira, como na pole position conquistada no Brasil em 2010 e a ótima prova que fez também em Interlagos em 2012. Aos 29 anos de idade, parece ser sua última chance de conseguir isso.